Home cultura popular De Shakespeare à rolagem de tela: Para onde vai sua atenção na era digital?

De Shakespeare à rolagem de tela: Para onde vai sua atenção na era digital?

by Deivid Levy

“Nem tudo que reluz é ouro. É a verdade mil vezes repetida, pobre Mouro, mas sempre há quem venda a sua aparência, para assim parecer a minha existência. Mesmo em túmulos de ouro, os vermes têm moradia, traria melhor agouro, se tivesse mais ousadia. Agora, com a resposta encontrada, sua corte está mesmo acabada.”

Gostou? É Shakespeare.

Mais precisamente a mensagem colocada dentro da arca de ouro, na comédia “O Mercador de Veneza”, para zombar de quem for atraído pelo seu brilho. 

É evidente que nessa passagem Shakespeare não se referia às mídias sociais ou aparelhos eletrônicos, visto que, por volta de 1600, no auge da sua carreira, essas coisas estavam longe de existir. E não é como se o dramaturgo tivesse problemas para manter uma plateia atenta.

É discutível se isso se dava exclusivamente pela sua genialidade ou só era possível graças a ausência de todas as distrações modernas, mas uma coisa é certa: um minuto atrás sua atenção estava nas palavras de Shakespeare, e agora, nas minhas. 

Para onde ela vai em seguida?

Shakespeare não conseguiria manter a atenção do seu público nos dias de hoje!

Uma sentença curta e impactante. Dita de repente, pois eu precisava de uma nova virada nesse texto se não quisesse perder você para qualquer outra fonte de entretenimento. Uma frase destacada, para obrigar seus olhos a ler, e em itálico, para simbolizar profundidade, como Nietzsche fazia, mesmo que essa seja uma opinião minha, e não dele. 

 

As mídias sociais e a “multitarefa”

Em um questionário virtual da Nielsen com a MetaX, que coletou as respostas de 1.130 pessoas, 70% dos entrevistados afirmaram que usam smartphone enquanto assistem TV. 

Como poderia Shakespeare competir com isso? 

Hoje, nem o cinema, com um telão gigante lotado de estímulos visuais, consegue manter por mais de 100 minutos a atenção da maior parte do público, que não resiste à vontade de dar uma olhadinha rápida em suas telas de bolso.

Acostumados com o hiperestímulo, associamos a prática de uma atividade por vez com perda de tempo, mas, segundo um estudo de 2018 do The Next Web, a chamada “multitarefa de mídia” pode ser um sinal de problemas de atenção e memória. De acordo com a pesquisa, quem pratica essas ações de forma constante se saiu 8 a 10% pior em um teste de atenção sustentada em comparação a quem só faz isso ocasionalmente.   

É claro que a multitarefa não é necessariamente prejudicial, já que não há mal algum em ouvir um podcast interessante enquanto lava a louça, por exemplo. Porém, segundo esse mesmo estudo, é praticamente impossível realizar determinadas tarefas mais complexas simultaneamente, graças a uma característica no nosso cérebro chamada “gargalo de atenção”.

E o que mais surpreende é a velocidade que tudo isso evoluiu.

Ultimamente, tenho me deparado com o fenômeno dos “vídeos curtos divididos”, onde a tela, que já foi comprimida e verticalizada, passa a ser ocupada apenas parcialmente pelo conteúdo principal, enquanto na outra parte passa algum vídeo relaxante ou repetitivo para manter o foco do público.

Na era digital, toda a Biblioteca de Alexandria teria de ser resumida em um vídeo de um minuto para que as pessoas não perdessem o interesse e rolassem o dedo em direção ao próximo, pois nossa atenção não só está dividida, mas também dura cada vez menos.

 

Quanto dura a concentração?

Uma pesquisa realizada pela Microsoft Canadá com 2.000 participantes constatou que a capacidade de concentração das pessoas tem decaído bastante. 

E muito rápido.

Em 2000, o tempo médio de concentração era de 12 segundos. Hoje, não conseguimos nos manter concentrados em uma mesma atividade mais de 8 segundos. Por 1 segundo, nossa concentração consegue ser pior que a de um peixinho dourado. Segundo a pesquisa, a queda é fruto da revolução móvel.

O estudo também identificou uma diferença de atitude em diferentes idades.  Entre os jovens de 18 e 23 anos, 77% responderam que quando nada prende sua atenção, a primeira coisa que fazem é olhar o celular, enquanto na faixa etária de mais de 65 anos a taxa cai drasticamente para 10%.

 

Conclusão

Shakespeare não conseguiria manter a atenção do seu público nos dias de hoje!

Não por culpa dele, nem nossa. 

Nos adaptamos ao ambiente em que somos colocados. Se nosso ambiente fosse aquático, possivelmente teríamos as nadadeiras de um peixinho dourado, mas ao invés disso, temos a concentração de um. 

E, falando de peixinho dourado para peixinho dourado, talvez Shakespeare não consiga prender nossa atenção por mais de 8 segundos, mas a mensagem naquela arca ainda é valiosa nos dias de hoje.

“Nem tudo que reluz é ouro.”

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